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EQUAL intervém em Bairros Críticos na área de Lisboa
«Mostra de produtos EQUAL – Iniciativa “Bairros Críticos”»
Com vista a apoiar a intervenção das organizações e agentes envolvidos na “Iniciativa Operações de Qualificação e Reinserção Urbana de Bairros Críticos”, realizou-se, no passado dia 8 de Janeiro, em Lisboa, uma Mostra de Produtos EQUAL. O evento traduziu-se num encontro entre 12 projectos EQUAL, e cerca de 40 responsáveis e técnicos envolvidos na Iniciativa Bairros Críticos, para propiciar o conhecimento e a futura utilização nestes territórios dos instrumentos de apoio à inserção desenvolvidos pela EQUAL. Os instrumentos EQUAL e as intervenções a desenvolver nos Bairros têm como pano de fundo a promoção do empowerment individual e comunitário, contribuindo para a inclusão e melhoria da qualidade de vida dos(as) cidadãos(ãs) residentes nos bairros da Cova da Moura (concelho da Amadora) e Vale da Amoreira (concelho da Moita). O resultado do evento foi um reconhecimento generalizado da qualidade e carácter inovador dos produtos EQUAL. Os participantes ficaram motivados para a utilização dos novos instrumentos, reconhecendo a sua utilidade para responder mais eficazmente às necessidades sentidas nestes bairros.
Imagine que trabalha no atendimento ao público de uma entidade financiadora de projectos comunitários. Aos candidatos, sabe que tem que entregar um dossier A4, cuja documentação deverá ser preenchida a caneta preta. Entre telefonemas e informações que tem que repetir trinta vezes por dia, alguém lhe pergunta. «Em vez de A4 pode ser uma cartolina A2?» - «Não», responde. «É dossier A4.» - «Mas para o nosso projecto era muito melhor», insiste o jovem à sua frente. «Não», responde de novo. «Tem que ser A4». «Porquê?» A resposta é (des)esperada: «Porque sim». «Regras são regras. Tem que ser A4» - «E caneta azul, pode ser caneta azul?», pergunta o jovem sem perceber bem que regras lhe impõem. «Não. É A4 e caneta preta».
O jovem tenta um “mas” em vão, tenta várias vezes, sem sucesso. Afinal ele só queria montar um projecto de paintball para os jovens da sua comunidade, porque, pensou, «podia ser bom para eles». Ele e o seu amigo, que o acompanhava no entusiasmo de ajudar a sua comunidade e na frustração de não entender a linguagem de alguém que se recusa a explicar-lhes porque é que A4 é melhor que A2, ou porque é que uma caneta preta é melhor que azul. Mas para quem a regra sempre funcionou, porquê mudar? Porquê mudar só porque existe alguém para quem a regra não funciona?
«É preciso encontrar formas diferentes de comunicar, de dialogar e de funcionar», diz Gisella Mendoza, responsável pelo GTO – Grupo de Teatro do Oprimido, um grupo de teatro que concretiza uma metodologia de empowerment, que dá voz (e corpo) aos públicos desfavorecidos, e que apresentou a rábula acima resumida para inspirar o trabalho na Mostra. Foi assim, entre apresentações, partilhas e animados debates que a Iniciativa Bairros Críticos e a EQUAL se juntaram para encontrar respostas inovadoras para a vida dos bairros da Cova da Moura e do Vale da Amoreira, sem ter de se voltar a reinventar a roda.
Encontro entre iguais
Foi desta consciência de que é preciso encontrar formas diferentes de dialogar e desenvolver projectos e modelos de intervenção inovadores, a partir da vivência e das necessidades dos habitantes de bairros urbanos sensíveis, que nasceu a “Iniciativa de Qualificação e Reinserção Urbana de Bairros Críticos”. A Resolução do Conselho de Ministros de 2 de Agosto de 2005, definiu as seguintes acções a privilegiar no âmbito da iniciativa:
● Surgimento de novas formas organizativas, capazes de associar a prestação de serviços essenciais para a melhoria da qualidade de vida no bairro à criação de novas oportunidades de emprego para os residentes;
● Construção de respostas adequadas à integração social das crianças e dos jovens, bem como da população socialmente excluída e das minorias étnicas, nomeadamente através de acções nos domínios da educação, da formação, das artes, da cultura, do desporto e do lazer;
● Surgimento de iniciativas e equipamentos de suporte necessários ao desenvolvimento de acções de animação, formação e acompanhamento no acesso ao emprego e à micro-empresa;
● Disponibilização de espaços adequados ao desenvolvimento das actividades, incluindo as de natureza económica, dos residentes;
● Dinamização e apoio a iniciativas de natureza arquitectónica, urbanística e ambiental que contenham uma dimensão inovadora significativa;
● Preparação de um projecto global de reinserção funcional e urbanística do bairro na área (cidade) envolvente.
Para colocar em prática este iniciativa foram escolhidos 3 Bairros piloto: os já referidos Cova da Moura e Vale da Amoreira e, também, o bairro do Lagarteiro, o concelho do Porto. Face aos objectivos definidos, torna-se evidente o interesse estratégico que o modelo de intervenção EQUAL e a inovação criada pelos seus projectos constitui para o sucesso desta iniciativa.
Com efeito, numa fase em que se prepara a Acção 3 EQUAL (Disseminação), não podia ser mais oportuna uma intervenção conjunta. Depois de uma selecção cuidadosa das potenciais soluções EQUAL a disseminar - quer por parte da Comissão de Acompanhamento do IHRU (Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana), quer da EQUAL – realizou-se esta “Mostra”, que promoveu o encontro entre os conceptores dos produtos e os seus potenciais utilizadores nestes bairros.
Ana Vale, visivelmente empenhada na oportunidade de fazer beneficiar da inovação EQUAL novos utilizadores e destinatários, abriu a sessão dando as boas vindas a todos os presentes e confessando a sua grande «expectativa de poder capitalizar o enorme investimento feito pela EQUAL em benefício das pessoas e dos territórios que mais precisam de inovar, para melhor responder às suas necessidades». O objectivo (bem sucedido) foi o de aproximar as necessidades da procura às soluções oferecidas, num evento onde houve «tempo e oportunidade para explorar e discutir em profundidade as soluções e as ferramentas desenvolvidas e testadas pelos projectos», afirmou Ana Vale, gestora da EQUAL.
«A Iniciativa Bairros Críticos define-se por projectos de desenvolvimento integrado em territórios, de uma forma experimental, numa lógica muito aberta de recursos. Nesse sentido, a EQUAL é um programa por excelência, já que tem muitas soluções testadas e acredito que poderemos beneficiar muito deste encontro, sobretudo porque há aqui uma partilha muito forte de filosofias e linguagens», referiu Maria João Freiras, do IHRU.
Empowerment individual e comunitário
Voltando a Gisella Mendoza, sobre a experiência do Teatro do Oprimido:
«Após 6 meses de trabalho de formação de formadores na técnica do Teatro Fórum, os elementos dos grupos de Teatro Fórum dos bairros da Cova da Moura e do Zambujal encontravam-se prontos para o desafio de falar do seu próprio processo de empowerment através do teatro. Visto que a nossa actividade é uma actividade artística e tendo em conta que esta abordagem tem provocado a tomada de consciência sobre a identidade, as capacidades e potencialidades dos jovens, não queríamos deixar de fazer aquilo que continuamos a fazer, mesmo após a EQUAL: Teatro!» A julgar pelo envolvimento dos presentes, a “performance” não só foi bem sucedida como provou, em conjunto com o novo perfil de “Peritos de Experiência” (também apresentado pelo projecto DiverCidade) ser uma resposta adequada para muitas das necessidades sentidas nestes bairros. «Temos mesmo que experimentar isto!», afirmou Hermínia Silva, professora numa escola da Cova da Moura.

Partilha de objectivos comuns
O entusiasmo dos participantes pelas «soluções» apresentadas foi evidente, tendo aquelas sido reconhecidas como grandes mais-valias para o empowerment da vida e da comunidade nestes bairros. Um percurso pelas mesas, onde os vários projectos e participantes dialogavam e interagiam animadamente, deixou antever o interesse comum em estabelecer parcerias, desenvolvendo e adaptando a estes bairros algumas das soluções apresentadas.
O desafio estava lançado e a dinâmica criada, numa sessão onde estiveram 12 projectos EQUAL, que apresentaram os seguintes produtos:
- relacionados com o processo ou percurso de inserção social:
- TUTAL – metodologia de intervenção com alunos e alunas promovida por professores tutores (projecto “ITINERIS”)
- Gestão participada e aquisição de competências (ensaio no contexto de gravidez e maternidade precoces) (projecto “Humanus CAM”)
- Relação.com – manual de formação em competências relacionais para agentes de reabilitação psico-social (projecto“FREE”)
- Gestão de percursos sociais (projecto “E-Re@al”)
- Guia de boas práticas para o incremento da diversidade (projecto “Nautilus”)
- Toolkit de gestão de recursos humanos para a diversidade (projecto “Nautilus”)
- Dossier formativo Marketing pessoal, empowerment e igualdade de oportunidades (projecto “Nautilus”)
- relacionados com a criação do auto-emprego e com o envolvimento do meio empresarial:
- Estudo custo-benefício do Emprego Apoiado para as empresas (projecto “Nautilus”)
- Dossier formativo Marketing social e inserção nas empresas (projecto “Nautilus”)
- SIM – Sistema ao Micro-crédito para o auto-emprego e a criação de empresas (projecto “Glocal”);
- PREMIUM – criatividade, competência e sustentabilidade no empreendedorismo local (projecto “Glocal”)
- E2E (Empresariado pró Empreendedorismo) – boas práticas de solidariedade económica: programa de mentores voluntários e sistema de apadrinhamento (projecto “Glocal”)
- Empreender em Rede – prática de criação de redes de cooperação inter-empresarial em pequenos negócios (projecto “Glocal”).
- relacionados com a auto-determinação e o desenvolvimento comunitário:
- Kit para a animação e o desenvolvimento local (projecto “K’Cidade”)
- Teatro Fórum: uma ferramenta de promoção do empowerment individual e comunitário (projecto “DiverCidade”)
- Referencial de formação e perfil do Perito de Experiência (projecto “DiverCidade”)
- Territórios peri-urbanos – guia metodológico de apoio à intervenção (projecto “Ideias”)
- relacionados com a Qualidade do sector social:
- Guia para a aplicação da Norma ISO 9001:2000 ao sector social (projecto “Equalidade”)
- Manual de procedimentos da Qualidade (projecto “Equalidade”)
- MQR-Tipo - manual de apoio ao referencial de Qualidade do ISS (projecto “ADAPT”)
- relacionados com a gestão das organizações:
- D3 – Soluções digitais de marketing e gestão para organizações sem fins lucrativos (projecto “D3”)
- Plataforma interactiva para a gestão de listas de espera comuns (projecto “ADAPT”)
Gerar novas dinâmicas
A intervenção EQUAL – Bairros Críticos concretiza-se, assim, como um conjunto de Processos de Disseminação/ Incorporação de “Produtos EQUAL” convergentes no mesmo território, contribuindo, de uma forma concentrada, articulada e integrada, para a capacitação, autonomia, inclusão na sociedade e melhoria da qualidade de vida dos(as) cidadãos(ãs) residentes nestes bairros.
Nestes bairros, as necessidades sentidas são muitas, como ficou claro na sessão. «Há pessoas que não fazem sequer ideia do que é um currículo», referiu Ermelinda Garcia, da Associação Moinho da Juventude, que actua na Cova da Moura. Com efeito, uma das grandes prioridades de intervenção evidenciada pelos participantes na mesa do projecto NAUTILUS, foi a de «trabalhar sobre as competências sociais e pessoais das pessoas, investindo na sua formação», afirmou Ermelinda Garcia. Desta partilha, em torno dos vários produtos apresentados pelo NAUTILUS na área da gestão da diversidade, do marketing social e profissional e do envolvimento das empresas (apresentando mesmo os resultados de um estudo sobre a relação custo-benefício do emprego apoiado para as empresas), nasceram novos horizontes de intervenção. Interacção e abertura foram, assim, os temas chave num encontro de interesses que se revelou bastante produtivo.

Motivar e envolver
«Até ao momento tem-se feito muito pouco. Porque diagnósticos há muitos, técnicos encontram-se facilmente, mas o que as pessoas querem e precisam é acção e esta mostra de produtos EQUAL pode de facto acender luzes neste projecto dos Bairros Críticos», afirmou Isabel Nascimento, da Junta de Freguesia da Buraca (Cova da Moura).
E ficou demonstrado que é possível encontrar essas novas formas de diálogo, promovendo o encontro de linguagens e a concertação de soluções conjuntas. Na verdade, quando fechados no nosso universo, cada vez que uma luz é precisa vemo-nos na necessidade de a acender sozinhos. «Começamos com dinâmicas muito próprias e em momentos como este percebemos que podemos trabalhar em conjunto e com muito mais resultados, sem necessidade de estar sempre a iniciar do zero», afirmou Isabel Nascimento.
Certo é que a vontade de mudança tem mesmo que partir de dentro. Essa é também a grande mais valia dos produtos EQUAL. Mostram caminhos, capacitando as pessoas e dotando-as de competências para que tomem nas suas mãos o rumo da sua própria vida e sejam, elas próprias, no seio da sua comunidade, agentes de mudança. Por isso é tão importante «saber motivar e envolver as pessoas», apontou Gisella Mendoza.
Identificar necessidades e respostas
Motivar e envolver é, de resto, uma estratégia assumida desde há muito pelos projectos EQUAL, que também aqui foi colocada em prática. Numa passagem pela mesa do projecto ITINERIS, percebia-se isso mesmo. Professores e responsáveis do projecto encontravam-se mergulhados numa chuva de ideias, em volta de um produto inovador cujo objectivo fundamental foi o de desenvolver um programa de tutoria de alunos (TUTAL), que permita evitar mais eficazmente o abandono escolar. E abandono foi o que certamente não existiu nesta mesa. A taxa de participação foi de 100%, já que a proposta do projecto era a de uma viagem. Mas não uma viagem qualquer.
«Hoje vamos falar de jardinagem», iniciou Francisco Simões, responsável pelo ITINERIS. De imediato, imagens plenas de cor e paisagens que inspiram, sucederam-se num powerpoint envolvente. «Podíamos falar de túlipas, rosas, orquídeas e até de hortênsias, mas vamos falar de um certo tipo de flores. Malmequeres, foi esta a inspiração para criar a figura do tutor na solução/produto que construímos. Porque é esta a perspectiva dos alunos, a do “professor bem-me-quer”, “professor mal-me-quer”», referiu Francisco Simões. Assim, de ideia em ideia, de pétala em pétala, a viagem proposta deixou que os presentes fossem descobrindo por si próprios esta solução inovadora EQUAL.
Quando se encontra uma resposta para uma dificuldade efectiva, é caso para dizer que se colheu uma flor. Aqui colheram-se muitas e, dir-se-ia, plantaram-se outras tantas. «Nesta partilha de práticas tem mesmo que haver flexibilidade, porque nestes bairros, nestas realidades, nestas escolas, cada dia é um dia, com novos obstáculos para ultrapassar», referiu uma professora do Vale da Amoreira. O segredo para todo este processo? Acrescenta a professora que o caminho só poderá ser o de «exercer uma escuta verdadeiramente activa, para melhor saber identificar necessidades e respostas».
Impulsionar a mudança
Escuta activa num diálogo aberto entre necessidades e respostas foi, efectivamente, o grande contributo desta sessão para o projecto de Intervenção EQUAL – Bairros Críticos, onde muitas foram as acções inovadoras que já se começaram a desenhar.
«Estou ciente do desafio que esta intervenção representa para os Projectos, Parcerias de Desenvolvimento e Gabinete de Gestão, tendo em conta o seu carácter inovador, o impacto esperado e as potenciais consequências estratégicas que dela podem emergir para as políticas de gestão territorial de espaços onde convergem e coexistem problemáticas muito diversificadas», referiu Ana Vale.
Certamente que os resultados se farão sentir num futuro breve, resultado de um dia onde cada momento teve um sabor especial e cada história foi motivo de uma nova história. Quem sabe, serão também estas “histórias” exemplo impulsionador dos novos capítulos que já se antevêem para os bairros da Cova da Moura e do Vale da Amoreira.
Findo o dia, os projectos EQUAL e as organizações dos territórios têm agora entre mãos a tarefa de identificar recursos a mobilizar para concretizar os resultados deste encontro de interesses e vontades em Planos de Acção concretos, fundados numa lógica de empowerment e acção participada.
Para aceder à descrição dos produtos da “Mostra EQUAL – Iniciativa Bairros Críticos”, clique aqui.
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