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Aprender com a experiência
Apostar no Mainstreaming das Soluções EQUAL
Contrariamente ao que acontece no campo da tecnologia, a inovação e disseminação na intervenção social estão ainda a dar os primeiros passos enquanto processo social. Como programa experimental, a EQUAL tem assumido um inquestionável papel de vanguarda neste campo, desenvolvendo recursos e soluções orientados para necessidades específicas, com resultados que assumem a marca de inovação social. Chegada a altura de transferir as boas práticas desenvolvidas e testadas pelas Parcerias de Desenvolvimento EQUAL da segunda fase, a Newsletter EQUAL propõe uma visita guiada pelo terreno da disseminação.
Apesar do grande envolvimento dos Estados-Membros nas respostas sociais a problemas crescentes que exigem uma atenção prioritária, existem franjas da população que permanecem sistematicamente excluídas das respostas regulares. Neste contexto, «o pressuposto de que pela via da experimentação seria possível construir respostas alternativas, veio a confirmar-se», afirma Sandra Almeida, responsável pelo acompanhamento dos projectos experimentais no Gabinete de Gestão EQUAL. Ao incluir nos seus processos de concepção de soluções inovadoras uma etapa obrigatória de disseminação e mainstreaming, esta Iniciativa tem, assim, dado um inegável contributo para a consolidação da inovação testada pelos projectos, conferindo um carácter mais sustentado aos seus resultados.
«Os projectos desenvolvidos ao abrigo da EQUAL foram capazes de contribuir com metodologias e ferramentas para a flexibilização das respostas em áreas tão diversas como a igualdade de oportunidades, espírito empreendedor, democratização do empreendedorismo e do acesso ao mercado de trabalho, formação à distância, implantação de referenciais de avaliação de qualidade no 3º Sector ou modernização do sistema prisional, entre outros», afirma Sandra Almeida. Agora é tempo de aprender com a experiência. Ultrapassada que está a fase de concepção, os projectos EQUAL enfrentam um novo desafio, em nome da inovação social. A viagem proposta é a disseminação - Acção 3 EQUAL -, que se traduz na transferência de produtos e práticas inovadoras.
Promover o reconhecimento social
Uma estratégia de mainstreaming tem no seu horizonte a convicção de que é possível mudar as culturas organizacionais e intervir na qualidade e adequação das políticas públicas. É por isso que o processo de mainstreaming na área social se constitui como uma proposta alternativa para a elaboração de políticas e adopção de práticas inovadoras, baseado na integração de princípios, estratégias e práticas de igualdade de oportunidades que provaram a sua eficiência.
Na EQUAL a inovação assume-se como um processo colectivo e dinâmico, que envolve experimentação em parceria, aprendizagem e partilha, resultando estas práticas em produtos ou soluções inovadoras. Estes serão, por sua vez, objecto de disseminação, ou seja, incorporação nas práticas das organizações ou das equipas que lhes reconheçam valor, encontrando neles soluções para os seus problemas com a consequente produção de mais-valias para os seus utilizadores e beneficiários finais.
Apesar de aparentemente simples, «este é um processo complexo, talvez mais do que a própria fase de concepção», refere Sandra Almeida, acrescentando que «Mesmo quando a inovação dá prova de resultados inquestionáveis, as apresentam-se pouco disponíveis para mudar». Esta realidade vem acentuar a ideia de que para a inovação se desenvolver num processo sustentado tem que ser capaz de suscitar reconhecimento social. Ou seja, exige condições e contextos culturais, organizacionais e sociais que a validem, aceitem e integrem.
Mais-valias dos princípios EQUAL
«O caso mais interessante de disseminação que conheço, gerado na Rede Temática, diz respeito à incorporação dos princípios EQUAL nas práticas de gestão da ADRACES – Associação de Desenvolvimento da Região da Raia Centro Sul. Após a 1ª Fase da EQUAL e da participação de um representante numa Rede Temática, esta Associação decidiu implementar as seguintes práticas em todos os projectos e programas em que está envolvida: (1) todos os gestores de projecto têm de prever, desde a fase de concepção dos projectos, a “geração” de produtos tangíveis na linha do que se entende por produtos EQUAL; (2) qualquer projecto/programa tem de integrar a prática do balanço de competências; (3) todos os projectos/programas são objectos de auto-avaliação», refere Florindo Ramos, Animador da Rede Temática “Reconversão e valorização dos saberes tradicionais”. Este é apenas um exemplo de um projecto EQUAL que percebeu e integrou na sua acção o verdadeiro sentido da aposta na inovação social.
Provocar uma mudança sustentada
A Acção 3 da EQUAL (disseminação) parte, assim, do pressuposto de que os produtos desenvolvidos são susceptíveis de ser aplicados em contextos mais alargados do que a Parceria de Desenvolvimento que lhes deu origem. Este é, inevitavelmente, um processo participado que exige competências, conhecimentos, redes de contacto e influências, assim como o domínio de processos e tecnologias.
Para que esta acção, por si só difícil, seja levada a bom termo, o caminho deve ser preparado o quanto antes através de uma aposta na convergência de actores estratégicos. Neste sentido, diz a experiência dos projectos da 1ª Fase EQUAL, que uma Parceria de Desenvolvimento que seja capaz de prever bem os factores críticos da disseminação, antecipando a construção da Parceria de Disseminação e a própria incorporação, parte já em vantagem.
E porque vale a pena aprender com as boas experiências, partilhe-se, neste contexto, o exemplo do projecto de 1ª Fase EQUAL CH@TMOULD, que constituiu ao longo da Acção 2 (Acção de construção do produto/solução inovadora) um “Observatório” composto por cerca de 30 empresas do sector dos moldes que reuniu com regularidade, no sentido de acompanhar e dar inputs ao projecto. Para além de constituir um poderoso instrumento de empowerment das empresas, este Observatório constitui essa importante via de antecipação e facilitação da disseminação, proporcionando a gradual incorporação das novas práticas pelas empresas que nele participaram.
Disseminar Produtos EQUAL
O processo de disseminação EQUAL representa «um trabalho árduo de demonstração de que aquilo que foi criado num ambiente específico, pode ser uma boa resposta e uma solução adaptável a outros contextos», aponta Emília Arroz, responsável pela “actividade temática” no Gabinete de Gestão EQUAL.
À semelhança do CH@TMOULD, muitos foram os projectos da 1ª Fase do Programa que já viveram o processo de disseminação, podendo a sua experiência constituir uma importante contribuição para uma mais fácil apropriação destes processos por parte das parcerias que agora iniciam esta etapa. Nesse sentido, o Gabinete de Gestão EQUAL em parceria com o perito Horácio Covita e com uma pequena Comunidade de Prática constituída por seis responsáveis pela disseminação de produtos na 1ª Fase, construiu um Referencial de apoio à disseminação – “Disseminar Produtos”.
Segundo Horácio Covita, este Referencial constitui-se sobretudo, «como um potenciador de reflexão nas parcerias», no sentido de perceber e operacionalizar o mainstreaming. O documento representa também mais um produto inovador que é exemplo do trabalho da EQUAL. Ana Vale, gestora da EQUAL em Portugal, refere que a sua elaboração « vem contribuir para resolver uma importante questão a nível nacional e europeu, que é a passagem da experimentação ao mainstreaming».
Construir plataformas de cooperação
Sendo um recurso de orientação e apoio prático para os processos de disseminação e transferência de inovação social, o Referencial procura sistematizar as componentes estruturantes e operacionais destes processos. Neste contexto, são consideradas como mais-valias passíveis de ser capitalizadas pelas organizações empenhadas na disseminação dos produtos que construíram:
● Visibilidade e reconhecimento social;
● Capacidade de influenciar os sistemas;
● Oportunidade de aprender com os outros (a nível das equipas e das organizações);
● Domínio de um novo “produto” ou serviço que poderá ser alvo de disseminação;
● Conhecimento mais profundo dos “mercados”, da procura da inovação e logo oportunidades de
diversificação dos seus produtos;
● Alargamento da rede de contactos;
● Reforço das competências de cooperação e trabalho em rede.
Alimentar a convergência
Assumir uma estratégia de disseminação de produtos EQUAL implica uma forte aposta em três pilares – um Produto que tenha valor, uma Parceria credível e um Processo de disseminação eficaz. Para além destes “3P”, os actores críticos protagonistas da disseminação (incorporador, produtor, mediador e disseminador), e o “ciclo virtuoso da disseminação”, constituem as componentes estruturantes do processo de disseminação EQUAL.
Neste sentido, e muito resumidamente, são quatro as fases que se conjugam para formar este “ciclo virtuoso da disseminação”, iniciado com a etapa chave da Convergência, que representa um momento fundamental de consolidação e coesão da parceria. Segue-se a etapa da Apropriação dos conhecimentos e das competências inerentes à exploração/utilização do produto, que será objecto de Incorporação (integração, recontextualização e eventual reconstrução/adaptação do produto ou da prática ao contexto e cultura da entidade incorporadora).
Terminado o processo de incorporação, é tempo de parar e fazer o balanço (Resultados e Impactos) da disseminação. Este exercício pressupõe a identificação e análise do valor acrescentado induzido pelo produto ou prática incorporados nas dinâmicas das pessoas, das equipas e das entidades alvo da disseminação. À semelhança das outras fases do ciclo virtuoso, este deve ser um momento antecipado pela parceria, de forma a garantir resultados mais efectivos, exercendo uma monitorização contínua do processo de disseminação.
Para uma boa dinâmica de acção
Fundamental para o sucesso deste percurso é, igualmente, o entendimento destas fases como interdependentes e não estanques. «Se associarmos a convergência à coesão das parcerias, então ela é uma etapa constante e transversal, estando presente sempre que é necessário um diálogo da parceria em função de uma tomada de decisão», refere Margarida Segard, responsável pelo projecto F@do e membro da comunidade de prática “Disseminar”.
Afinal, assumir um compromisso de disseminação exige que a parceria saiba colocar as questões certas, operacionalizando estas fases de uma forma dinâmica. Leia-se no referencial que «mais do que temporalmente distintas, estas fases do ciclo de disseminação são, pois, sobretudo diferentes ao nível da intensidade e abrangência da mudança», assim, como «ao nível dos protagonismos dos diferentes actores».
Promover e sustentar a inovação
Porque a viagem da inovação exige preparativos, é importante que esta seja encarada do ponto de vista da sua consolidação e sustentabilidade.
Assim, condição prévia à sustentabilidade de toda e qualquer inovação é o reconhecimento do seu valor e utilidade pelos futuros utilizadores ou beneficiários. Para além disto, são também factores críticos da sustentação da inovação:
● A adaptação do produto aos novos contextos dos incorporadores para garantir a sua utilidade;
● A formação dos agentes que assegure continuidade à utilização do produto e a criação de uma cultura de aprendizagem permanente nas organizações incorporadoras;
● A garantia da rentabilidade financeira da inovação ou de conseguir financiamento público ou privado tratando-se de inovação à qual se reconhece valor social;
● A consagração legislativa ou regulamentar nos casos em que seja imprescindível para a operacionalização da inovação;
● A sua submissão a processos de reconhecimento da qualidade e de certificação;
● A integração da inovação nas organizações do mainstream, assegurando uma aplicação mais abrangente e sustentada das novas práticas;
● A constituição de redes de pessoas e organizações que, trabalhando no mesmo domínio, estão interessadas em partilhar a inovação e apoiar-se mutuamente e a aprender continuamente, para a resolução de problemas, prosseguindo a permanente renovação das suas práticas.
Reunidos estes ingredientes, cabe à parceria saber imprimir a criatividade necessário para gerar resultados duradouros, inovadores e que marquem a diferença no campo social. Afinal, como é referido no Referencial de Disseminação, não é possível concretizar um projecto de disseminação «sem pessoas criativas, autónomas, responsáveis, flexíveis e competentes no manuseio de recursos metodológicos, tecnológicos e técnicos. Os membros da parceria deverão ser capazes de ousar, reflectir, aceitar a diferença, pois só assim a inovação poderá ter lugar.»
Para aceder ao Referencial de apoio «Disseminar Produtos», clique aqui.
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