![]() |
||||
De mãos dadas com os sonhos
«Ainda há um longo caminho a percorrer, mas o sonho vai tendo uma continuidade e quer ter herança.», conta Olga Mariano, presidente da AMUCIP – Associação para o Desenvolvimento de Mulheres Ciganas Portuguesas. “Da exclusão à presidência, por um país melhor” poderia ser o título da história dos últimos anos de Olga Mariano. Ainda não há muitos anos atrás, esta mulher de etnia cigana achou-se viúva, com três filhos a seu cargo, a escolaridade interrompida na quarta classe e um rendimento mínimo de inserção de, na altura, 30 mil escudos mensais. Foi nestas circunstâncias que Olga aceitou fazer um curso de formação de mediadora sócio-cultural, promovido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, que lhe permitiu elevar o seu rendimento para 60 mil escudos. Como ela, foram escolhidas mais quatro mulheres de etnia cigana, que até aí se dedicavam à venda ambulante. «Achei o desafio justo e aceitei logo. O que começou por ser uma mais-valia em termos monetários, acabou por se tornar numa mais-valia pessoal. De repente encontrei uma nova forma de estar na vida, um novo sentido e, quando o curso terminou, queria continuar». E continuou. Uma ponte para o futuro Com esta convicção, Olga e as suas colegas de curso iniciaram uma longa caminhada. Num percurso que teve mais obstáculos que facilidades, encontraram uma porta aberta no CESIS – Centro de Estudos para a Intervenção Social. Segundo Heloísa Perista, do CESIS, o sonho apenas foi possível «porque desde o início foi sonhado por gente com os pés bem assentes na terra. Quando chegaram até nós, estas mulheres traziam a ideia de uma associação para melhorar a vida das suas crianças, tornar acessível a informação pública junto da sua comunidade e gerar oportunidades de emprego por parte de entidades públicas», refere Heloísa Perista. Deste encontro nasceu a AMUCIP – Associação Para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas, a primeira associação do género em Portugal.
Construir o sonho A ausência de respostas sociais flexíveis adaptadas às necessidades das pessoas e famílias ciganas foi, assim, o ponto de partida para efectuar um diagnóstico de necessidades, em que foram identificadas as áreas de acção prioritária na comunidade cigana:
Para além do planeamento de linhas de acção orientadas para estas necessidades, foi também necessário investir no reforço de competências sociais e técnicas das mulheres da AMUCIP, que queriam intervir dentro da sua própria comunidade. De uma forte emergência de mudança deu-se, então, o cruzamento de saberes e vontades que permitiram a conjugação de um projecto inovador de cidadania, baseado num forte trabalho intercultural. Esta dimensão inovadora é também uma postura assumida pelo próprio projecto. Leia-se, no seu texto de apresentação ao seminário, que «as práticas do projecto são de “trabalhar com” e não de “trabalhar para”, o que implica a recusa não só de intervenções avulsas ou preparadas por agentes da comunidade maioritária sem a participação directa, ao longo de todo o processo, de pessoas ciganas e das suas organizações, mas também de posturas que revelem que só um dos lados é que terá de mudar». Porque, afinal, só com uma abertura e disponibilidade de parte a parte para aprender e evoluir, se pode construir e estabelecer formas autênticas de acção e diálogo. As pessoas ciganas que, como afirma Olga, «olham as pessoas olhos nos olhos» estiveram neste seminário para mostrar, precisamente, o valor dessa autenticidade. Uma nova forma de olhar Neste seminário, Sandra Almeida, em representação do Gabinete de Gestão EQUAL, salientou alguns dos pontos fortes deste sonho, que considera uma aposta reconhecida na inovação e flexibilização das respostas sociais. «De uma brevíssima leitura do texto de apresentação do projecto, desde logo se intui alguns pilares estruturantes da IC EQUAL, ao abrigo dos quais o sonho se foi concretizando. A ideia com que se fica é que o sonho propõe uma nova forma de olhar para as relações de poder. O que testemunhamos é uma experiência de “trabalhar com”, de igual para igual e, só por isso, a probabilidade de se adequar melhor do que outras respostas, é muito real», sustenta Sandra Almeida. Sublinhando a importância deste sonho se ter desenvolvido como um projecto EQUAL, Paula Guimarães, da Fundação Montepio, aproveitou a ocasião para afirmar que «o programa EQUAL é uma chancela de credibilidade e qualidade, tendo, este ano, sido política da Fundação Montepio dar prioridade a projectos com participação desta Iniciativa. Desde logo, garantem sustentabilidade e continuação de boas-práticas», afirmou Paula Guimarães.
Criar respostas integradas Também Corália Loureiro, Vereadora da Câmara Municipal do Seixal abraçou de corpo e alma este projecto, que considera ser uma «valência e uma mais-valia» para o concelho. Por isso mesmo, a Câmara cedeu o terreno para o que viria a ser a sede da AMUCIP e o tão sonhado “Espaço de Apoio à Conciliação”. Foi a 9 de Março de 2006 que a AMUCIP viu a sua sede inaugurada, no Bairro da Cucena, na Aldeia de Paio Pires, no concelho do Seixal. Refere a vereadora, «faz todo o sentido que esta associação e este espaço existam aqui, já que surgem de uma identificação de respostas sociais flexíveis, adaptadas às pessoas de etnia cigana do concelho». Depois da constituição da associação, dispor de um local para dar apoio às crianças ciganas foi a segunda grande conquista de um projecto que se desenvolveu em torno de quatro pilares fundamentais: Como resultado deste trabalho, a criação de produtos informativos transferíveis e adaptados às comunidades ciganas para a promoção do desenvolvimento humano de pessoas ciganas e de imagens positivas recíprocas das comunidades ciganas e não ciganas, esteve também no horizonte do projecto. Educação, formação e emprego Workshops, educação cívica, motivação e acompanhamento escolar, actividades lúdicas, transporte de e para a escola e mediação entre escola e famílias são alguns dos serviços proporcionados pela AMUCIP, que revelam já bastantes resultados. «As diferenças são notórias, desde logo na atitude das crianças na escola», refere Corália Ribeiro, acrescentando que este projecto permitiu também «um melhor conhecimento das culturas, promovendo o diálogo intercultural e a integração da comunidade cigana na sociedade maioritária», que foi sempre o grande desejo das mulheres da AMUCIP.
Fomentar o diálogo intercultural «A sede da AMUCIP foi um grande passo, em primeiro lugar para o nosso reconhecimento dentro da nossa própria comunidade. Estamos ali para lhes mostrar (aos outros ciganos) que queremos ajudar e estabelecer o diálogo», refere Anabela Carvalho, da AMUCIP, acentuando o importante papel simbólico que a existência deste espaço veio conferir ao trabalho do projecto e à própria concepção do papel da mulher dentro da comunidade cigana. Partilhando as dificuldades sentidas, Olga Mariano conta que “a comunidade opôs-se muito por achar que íamos deixar de ser ciganas. Eu quis mostrar que podia ser quem sempre fui, sem renegar as minhas tradições e cultura, mas com outras mais-valias a nível profissional». As provas foram dadas e o reconhecimento aconteceu, dentro e além fronteiras do concelho, tendo a AMUCIP recebido os Prémios Regional e Nacional “Igualdade na Diversidade” do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos (AEIOT). E se formação significa partilha, também aqui as aprendizagens tocaram todas as partes envolvidas. Pela primeira vez, o Instituto de Emprego fez a adaptação completa de um curso de formação de formadores (CAP), repensando estratégias, metodologias, conteúdos e acompanhamento. «Foi a primeira vez que se realizou em Portugal um curso para mulheres ciganas, dotando-as de competências técnico-pedagógicas para serem formadoras. Este trabalho exigiu uma negociação constante, mas foi muito rico», referiu Maria Viegas, do Centro Nacional de Qualificação de Formadores. «Foi muito gratificante saber que estávamos de igual para igual. Com esta formação ganhei um outro ritmo de vida, cresci muito como pessoa e como cigana. Sei que tenho muito para aprender mas também muito para dar», conta Alzinda Carmelo, da AMUCIP. E o tanto que está a ser dado por estas “Amucipianas” reflecte-se, entre outros resultados do projecto, nos 72 trabalhadores/os já formados/as para o desenvolvimento de competências interculturais. Foi também realizado um estágio para uma pessoa cigana no Centro Hospitalar do Baixo Alentejo, tendo em vista a sua contratação como interlocutor/a entre os serviços e a comunidade cigana. Levar o Sonho mais longe «Percorremos seguramente caminhos novos. Não podemos continuar a falar de sociedade democrática se não soubermos gerir a diversidade» referiu Maria Viegas. Ana Cardoso, do CESIS, acrescenta que «este projecto contém em si mesmo, a esperança da mudança e a AMUCIP representa uma via dessa mudança». O próximo passo é disseminá-la. Em resultado desta dinâmica e procurando a sua sustentabilidade, a parceria de desenvolvimento concebeu o “Guia de Boas Práticas para a Cidadania e o Relacionamento de Pessoas, Instituições e Comunidades Ciganas e Não Ciganas. Entre outras, este produto inovador e transferível constitui uma importante ferramenta para a estratégia de disseminação que está a ser preparada. As mensagens que se guardam deste seminário, essas, são já lições de vida: conhecer mulheres ciganas que são donas do seu destino e saber que uma associação de mulheres ciganas pode intervir em benefício da comunidade, se tiver apoio para o efeito; que é possível (e desejável) promover aprendizagens ‘empoderadoras’ para pessoas ciganas, com efeitos imediatos na sua actividade; que é possível apaziguar tensões entre comunidades ciganas e não ciganas e gerar o entendimento recíproco; que é possível partir e é possível regressar quando se tem um sonho, vontade e meios para o cumprir. Contra preconceitos e utopias, dissemine-se então o lema do projecto, palavras de Eleanor Roosevelt gravadas nas paredes da sede da AMUCIP, para lembrar todos os dias que «o futuro pertence às pessoas que acreditam na beleza dos seus sonhos». Para saber mais sobre o produto contacte:
|
||||