Newsletter Nº8 / Fevereiro de 2008
   

 

De mãos dadas com os sonhos
«Seminário P’lo Sonho é que Vamos»


Assinalando a transição do “Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades para Todos” para o “Ano Europeu do Diálogo Intercultural”, o projecto “P’lo Sonho é que Vamos” realizou o seu Seminário final, no passado dia 11 de Dezembro, em Lisboa. A concretização de um sonho foi a celebração partilhada entre os presentes e os elementos de um projecto de cidadania que, através de uma visão integrada e inovadora, tem vindo a contribuir para o reforço da coesão social no nosso País. Uma intervenção ‘de igual para igual’, nascida do sonho de 5 mulheres de etnia cigana, em nome do diálogo intercultural e de um futuro mais promissor para os seus filhos. Uma associação, práticas inovadoras e prémios de mérito são apenas alguns resultados tangíveis de um projecto EQUAL que demonstra que mudar para melhor é possível.

«Ainda há um longo caminho a percorrer, mas o sonho vai tendo uma continuidade e quer ter herança.», conta Olga Mariano, presidente da AMUCIP – Associação para o Desenvolvimento de Mulheres Ciganas Portuguesas. “Da exclusão à presidência, por um país melhor” poderia ser o título da história dos últimos anos de Olga Mariano. Ainda não há muitos anos atrás, esta mulher de etnia cigana achou-se viúva, com três filhos a seu cargo, a escolaridade interrompida na quarta classe e um rendimento mínimo de inserção de, na altura, 30 mil escudos mensais. Foi nestas circunstâncias que Olga aceitou fazer um curso de formação de mediadora sócio-cultural, promovido pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, que lhe permitiu elevar o seu rendimento para 60 mil escudos. Como ela, foram escolhidas mais quatro mulheres de etnia cigana, que até aí se dedicavam à venda ambulante.

«Achei o desafio justo e aceitei logo. O que começou por ser uma mais-valia em termos monetários, acabou por se tornar numa mais-valia pessoal. De repente encontrei uma nova forma de estar na vida, um novo sentido e, quando o curso terminou, queria continuar». E continuou.  

Uma ponte para o futuro
Ainda a formação não tinha terminado e já a ideia de uma associação que desse visibilidade à comunidade cigana, sobretudo às mulheres e crianças, ganhava raízes. «Neste caminho fomos dando forma ao sonho, com a percepção que podíamos não conseguir mudar, mas pelo menos conquistar algumas vitórias. Porque não começar pelas nossas casas? Uma ponte não se faz de uma só margem e tudo tem que começar pelas nossas crianças».

Com esta convicção, Olga e as suas colegas de curso iniciaram uma longa caminhada. Num percurso que teve mais obstáculos que facilidades, encontraram uma porta aberta no CESIS – Centro de Estudos para a Intervenção Social. Segundo Heloísa Perista, do CESIS, o sonho apenas foi possível «porque desde o início foi sonhado por gente com os pés bem assentes na terra. Quando chegaram até nós, estas mulheres traziam a ideia de uma associação para melhorar a vida das suas crianças, tornar acessível a informação pública junto da sua comunidade e gerar oportunidades de emprego por parte de entidades públicas», refere Heloísa Perista. Deste encontro nasceu a AMUCIP – Associação Para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas, a primeira associação do género em Portugal.

Construir o sonho
Com a constituição da AMUCIP e a sua parceria com o CESIS, ganhou também forma o projecto EQUAL “P’lo Sonho é que vamos”, que se
viria a desenvolver no âmbito de uma parceria de desenvolvimento constituída pelo CESIS (entidade interlocutora), a AMUCIP, o CHBA - Centro Hospitalar do Baixo Alentejo, S.A. e a Direcção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas.

A ausência de respostas sociais flexíveis adaptadas às necessidades das pessoas e famílias ciganas foi, assim, o ponto de partida para efectuar um diagnóstico de necessidades, em que foram identificadas as áreas de acção prioritária na comunidade cigana:

● Presença de estereótipos que dificultam o diálogo entre comunidades cigana e não cigana;
● Dificuldades específicas de conciliação entre família e actividade profissional;
● Predominância de padrões culturais, no seio da comunidade cigana, muito marcados por representações sociais quanto aos papéis desempenhados em função do género;
● Dificuldades de acesso à informação em geral e a direitos e deveres de cidadania;
● Opções de vida e de trabalho muito limitadas, sobretudo para mulheres e jovens ciganas.

Para além do planeamento de linhas de acção orientadas para estas necessidades, foi também necessário investir no reforço de competências sociais e técnicas das mulheres da AMUCIP, que queriam intervir dentro da sua própria comunidade. De uma forte emergência de mudança deu-se, então, o cruzamento de saberes e vontades que permitiram a conjugação de um projecto inovador de cidadania, baseado num forte trabalho intercultural.

Esta dimensão inovadora é também uma postura assumida pelo próprio projecto. Leia-se, no seu texto de apresentação ao seminário, que «as práticas do projecto são de “trabalhar com” e não de “trabalhar para”, o que implica a recusa não só de intervenções avulsas ou preparadas por agentes da comunidade maioritária sem a participação directa, ao longo de todo o processo, de pessoas ciganas e das suas organizações, mas também de posturas que revelem que só um dos lados é que terá de mudar». Porque, afinal, só com uma abertura e disponibilidade de parte a parte para aprender e evoluir, se pode construir e estabelecer formas autênticas de acção e diálogo. As pessoas ciganas que, como afirma Olga, «olham as pessoas olhos nos olhos» estiveram neste seminário para mostrar, precisamente, o valor dessa autenticidade.  

Uma nova forma de olhar
Para além da parceria de desenvolvimento, o projecto contou com a contribuição de outras entidades que fizeram parte de uma rede de acompanhamento permanente. O seu objectivo foi o de identificar estratégias consistentes que permitissem a auto-sustentação das respostas criadas e a sua avaliação crítica, assim como credibilizar, internalizar e disseminar as experiências inovadoras deste projecto. Desta rede de acompanhamento fizeram parte o ACIDI – Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural, a Câmara Municipal de Beja, a Câmara Municipal do Seixal, a Câmara Municipal de Serpa, o IEFP – Centro Nacional de Qualificação de Formadores, a Direcção Geral de Saúde e a Fundação Montepio.

Neste seminário, Sandra Almeida, em representação do Gabinete de Gestão EQUAL, salientou alguns dos pontos fortes deste sonho, que considera uma aposta reconhecida na inovação e flexibilização das respostas sociais. «De uma brevíssima leitura do texto de apresentação do projecto, desde logo se intui alguns pilares estruturantes da IC EQUAL, ao abrigo dos quais o sonho se foi concretizando. A ideia com que se fica é que o sonho propõe uma nova forma de olhar para as relações de poder. O que testemunhamos é uma experiência de “trabalhar com”, de igual para igual e, só por isso, a probabilidade de se adequar melhor do que outras respostas, é muito real», sustenta Sandra Almeida.

Sublinhando a importância deste sonho se ter desenvolvido como um projecto EQUAL, Paula Guimarães, da Fundação Montepio, aproveitou a ocasião para afirmar que «o programa EQUAL é uma chancela de credibilidade e qualidade, tendo, este ano, sido política da Fundação Montepio dar prioridade a projectos com participação desta Iniciativa. Desde logo, garantem sustentabilidade e continuação de boas-práticas», afirmou Paula Guimarães.

Criar respostas integradas
O caminho foi lento e exigiu um grande esforço de adaptação, sobretudo para a AMUCIP, que ainda não estava familiarizada com as dificuldades e processos inerentes a um projecto desta natureza, sobretudo um projecto EQUAL. Mas o sonho foi mais forte que as burocracias. «As mulheres ciganas perceberam que teriam que arriscar, que acreditar em si próprias e sentir a confiança da parceria, que foi a grande força que nós, mulheres da AMUCIP, precisávamos», diz Olga Mariano, que não hesitou em investir na sua cidadania quando descobriu que, independentemente da etnia, sexo ou idade, havia um futuro à sua frente.

Também Corália Loureiro, Vereadora da Câmara Municipal do Seixal abraçou de corpo e alma este projecto, que considera ser uma «valência e uma mais-valia» para o concelho. Por isso mesmo, a Câmara cedeu o terreno para o que viria a ser a sede da AMUCIP e o tão sonhado “Espaço de Apoio à Conciliação”. Foi a 9 de Março de 2006 que a AMUCIP viu a sua sede inaugurada, no Bairro da Cucena, na Aldeia de Paio Pires, no concelho do Seixal. Refere a vereadora, «faz todo o sentido que esta associação e este espaço existam aqui, já que surgem de uma identificação de respostas sociais flexíveis, adaptadas às pessoas de etnia cigana do concelho».

Depois da constituição da associação, dispor de um local para dar apoio às crianças ciganas foi a segunda grande conquista de um projecto que se desenvolveu em torno de quatro pilares fundamentais:
            ● I – Conciliação da Actividade Profissional com a Vida Familiar e o Percurso Escolar de pessoas ciganas
            no Bairro da Cucena – Criação do Espaço para Apoio à Conciliação;
            ● II – Trabalho Remunerado - Exploração de Caminhos para a Inserção Profissional de Pessoas Ciganas;
            ● III – Empowerment - Formação para Pessoas Ciganas;
            ● IV – Cidadania – Informação para a Cidadania; Formação para Agentes Sociais e Tertúlias de Troca
            de Saberes.

Como resultado deste trabalho, a criação de produtos informativos transferíveis e adaptados às comunidades ciganas para a promoção do desenvolvimento humano de pessoas ciganas e de imagens positivas recíprocas das comunidades ciganas e não ciganas, esteve também no horizonte do projecto.

Educação, formação e emprego
A grande inovação deste projecto encontra-se, desde logo, na própria AMUCIP, que é a única associação do género em Portugal a trabalhar directamente “com” e não “para” a comunidade cigana. As actividades desenvolvidas no Espaço de Apoio à Conciliação têm como grandes prioridades a criação e o teste de novas soluções para a conciliação da vida profissional, pessoal e familiar da comunidade cigana, assim como a aposta no apoio ao percurso escolar das crianças, de forma a prevenir o abandono escolar precoce e criar novas perspectivas de futuro.

Workshops, educação cívica, motivação e acompanhamento escolar, actividades lúdicas, transporte de e para a escola e mediação entre escola e famílias são alguns dos serviços proporcionados pela AMUCIP, que revelam já bastantes resultados. «As diferenças são notórias, desde logo na atitude das crianças na escola», refere Corália Ribeiro, acrescentando que este projecto permitiu também «um melhor conhecimento das culturas, promovendo o diálogo intercultural e a integração da comunidade cigana na sociedade maioritária», que foi sempre o grande desejo das mulheres da AMUCIP.

Fomentar o diálogo intercultural
Outra das actividades inovadoras realizadas neste centro são as tertúlias abertas à comunidade cigana e não cigana, que constituem uma via para a reconstrução do diálogo baseado na cidadania, compreensão, respeito e confiança mútua. Desta forma, a AMUCIP tem contribuído activamente para a realização de um dos grandes objectivos do projecto, a desconstrução de estereótipos recíprocos e a reflexão sobre as possíveis contribuições que podem advir da realização das potencialidades da comunidade cigana.

«A sede da AMUCIP foi um grande passo, em primeiro lugar para o nosso reconhecimento dentro da nossa própria comunidade. Estamos ali para lhes mostrar (aos outros ciganos) que queremos ajudar e estabelecer o diálogo», refere Anabela Carvalho, da AMUCIP, acentuando o importante papel simbólico que a existência deste espaço veio conferir ao trabalho do projecto e à própria concepção do papel da mulher dentro da comunidade cigana. Partilhando as dificuldades sentidas, Olga Mariano conta que “a comunidade opôs-se muito por achar que íamos deixar de ser ciganas. Eu quis mostrar que podia ser quem sempre fui, sem renegar as minhas tradições e cultura, mas com outras mais-valias a nível profissional».  

As provas foram dadas e o reconhecimento aconteceu, dentro e além fronteiras do concelho, tendo a AMUCIP recebido os Prémios Regional e Nacional “Igualdade na Diversidade” do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos (AEIOT).
 
Negociação, cooperação e empowerment
Outro dos grandes pilares do projecto foi o trabalho remunerado, que constituiu uma prova viva da vontade da comunidade cigana em estar presente em acções de formação, trabalhando novas competências e perspectivando o futuro de outras formas.

E se formação significa partilha, também aqui as aprendizagens tocaram todas as partes envolvidas. Pela primeira vez, o Instituto de Emprego fez a adaptação completa de um curso de formação de formadores (CAP), repensando estratégias, metodologias, conteúdos e acompanhamento. «Foi a primeira vez que se realizou em Portugal um curso para mulheres ciganas, dotando-as de competências técnico-pedagógicas para serem formadoras. Este trabalho exigiu uma negociação constante, mas foi muito rico», referiu Maria Viegas, do Centro Nacional de Qualificação de Formadores.

«Foi muito gratificante saber que estávamos de igual para igual. Com esta formação ganhei um outro ritmo de vida, cresci muito como pessoa e como cigana. Sei que tenho muito para aprender mas também muito para dar», conta Alzinda Carmelo, da AMUCIP. E o tanto que está a ser dado por estas “Amucipianas” reflecte-se, entre outros resultados do projecto, nos 72 trabalhadores/os já formados/as para o desenvolvimento de competências interculturais.

Foi também realizado um estágio para uma pessoa cigana no Centro Hospitalar do Baixo Alentejo, tendo em vista a sua contratação como interlocutor/a entre os serviços e a comunidade cigana.

Levar o Sonho mais longe
Os testemunhos falam por si e os resultados também. No sorriso destas mulheres ciganas, assim como de todos/as aqueles/as que têm trabalhado neste projecto, reflecte-se o sonho e a motivação de uma nova vida. O reconhecimento das mulheres da AMUCIP como mediadoras, a sua capacitação para o relacionamento com os serviços, o interesse crescente na organização de “tertúlias” por parte de instituições, assim como a abertura de novas vias de aproximação ao diálogo intercultural são algumas das mais-valias que resultam de todo este processo de formação e empowerment.

«Percorremos seguramente caminhos novos. Não podemos continuar a falar de sociedade democrática se não soubermos gerir a diversidade» referiu Maria Viegas. Ana Cardoso, do CESIS, acrescenta que «este projecto contém em si mesmo, a esperança da mudança e a AMUCIP representa uma via dessa mudança». O próximo passo é disseminá-la.

Em resultado desta dinâmica e procurando a sua sustentabilidade, a parceria de desenvolvimento concebeu o “Guia de Boas Práticas para a Cidadania e o Relacionamento de Pessoas, Instituições e Comunidades Ciganas e Não Ciganas. Entre outras, este produto inovador e transferível constitui uma importante ferramenta para a estratégia de disseminação que está a ser preparada.

As mensagens que se guardam deste seminário, essas, são já lições de vida: conhecer mulheres ciganas que são donas do seu destino e saber que uma associação de mulheres ciganas pode intervir em benefício da comunidade, se tiver apoio para o efeito; que é possível (e desejável) promover aprendizagens ‘empoderadoras’ para pessoas ciganas, com efeitos imediatos na sua actividade; que é possível apaziguar tensões entre comunidades ciganas e não ciganas e gerar o entendimento recíproco; que é possível partir e é possível regressar quando se tem um sonho, vontade e meios para o cumprir.

Contra preconceitos e utopias, dissemine-se então o lema do projecto, palavras de Eleanor Roosevelt gravadas nas paredes da sede da AMUCIP, para lembrar todos os dias que «o futuro pertence às pessoas que acreditam na beleza dos seus sonhos».

Para saber mais sobre o produto contacte:
Ana Cardoso, CESIS – Centro de Estudos para a Intervenção Social
Rua Rodrigues Sampaio, nº31-S/, L-Dta
1150-278 LISBOA
Tel.213 845 560
Fax.213 867 225
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