Debate no Seminário Europeu «Balanço de Competências, Políticas, Rumos e Inovação
Mais desafios na validação de adquiridos

A importância da metodologia do balanço de competências como elemento estruturante do processo de certificação de adquiridos nas políticas de (re)qualificação ou (re)integração foi um dos temas em debate no seminário «Balanço de Competências, Políticas, Rumos e Inovação», que decorreu a 19 e 20 de Abril, em Santa Maria da Feira. Os técnicos enaltecem os resultados conseguidos, cientes de que muito há ainda a fazer.

Fernanda Marques, presidente da Comissão Executiva da ANOP – Associação Nacional de Oficinas de Projectos –, considera necessário que os técnicos de validação de adquiridos «não tenham distanciamento» em relação às pessoas que procuram estes mediadores para, por exemplo, se (re)integrarem no mercado de trabalho.
Na conferência «O Balanço de Competências e a Validação de Adquiridos», no âmbito de um seminário europeu intitulado «Balanço de Competências, Práticas, Rumos e Inovação», que teve lugar em Santa Maria da Feira, a responsável da ANOP falou para uma plateia esmagadoramente constituída por técnicos, formadores e estudantes, partilhando algumas inquietações.
Num enquadramento em que há profundas alterações no mundo do trabalho e em que a estabilidade do emprego é um conceito em desuso, o impacto desta realidade na vida das pessoas veio realçar a importância das competências de cada um. A metodologia do balanço de competências adquiriu, assim, grande impacto nas políticas europeias de requalificação, como método estruturante do processo de certificação de adquiridos.
«Nós somos agentes de mudança e desenvolvimento. Mas em que medida é que nós próprios nos desenvolvemos na nossa interligação com esta actividade? A nossa interligação determina a nossa sensibilidade à mudança ou o distanciamento e mecanização da nossa actividade», sustentou Fernanda Marques.
Dissertando sobre a utilidade da validação de adquiridos, focou a necessidade de atribuir ao processo «um sentido político e estratégico e não meramente instrumental, que leve em linha de conta o sentido da liberdade, da igualdade e da autonomia». A validação de adquiridos «tem que ser promotora da liberdade individual, que se traduz na liberdade de escolha dos percursos». A autonomia também é uma questão central: «O resultado do processo tem que fazer com que o indivíduo tenha a noção de si, da sua identidade própria».
Na aplicação da metodologia do balanço de competências uma das ideias fulcrais passa por induzir dinâmicas de conhecimento. «Não nos podemos esquecer que o sujeito está no centro do processo, o sujeito é que dirige o processo», alerta, rejeitando práticas do género «tome a ficha, preencha e traga».
O domínio cultural da tendência para achar que a pessoa bem sucedida é a realizada profissionalmente foi realçado como «uma dimensão pessoal, hoje em dia sobrevalorizada, que está longe de ser a única». O balanço de competências que conduz à validação de adquiridos deve, também, desenvolver a capacidade de projecção do futuro, «na capacidade de ter projectos, profissionais, familiares, comunitários e sociais».
Concluindo, reforçou a ideia inicial de que os agentes e técnicos «têm de crescer pela via de quem ajudam», para acrescentar que «devemos transportar a nossa vida para o que fazemos, sem distanciamento».

Balanço de competências: reconhecimento social de adquiridos e valorização das pessoas

Outro dos intervenientes na conferência foi Luís Alcoforado, professor na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, que falou do balanço de competências como «um dispositivo que não pode ser apropriado por uma determinada política ministerial e em determinadas circunstâncias. Tem um conjunto de recursos que dão um grande contributo, mas ultrapassa muito a execução dessas políticas».
O professor universitário dissertou sobre a importância de dois saberes: os adquiridos, que são conseguidos fora da escola, muitas vezes mais importantes que os escolares, aos quais não costumamos dar grande importância social; e os saberes escolásticos. «Esses adquiridos procuram reconhecimento social, para se tornarem equivalentes aos saberes que têm origem no sistema de formação e educação». Ideias simples, «mas que não são fáceis de pôr em prática».
Os saberes construídos, organizados em conteúdos, disciplinarmente, em percursos que aprendemos na formação, e os saberes mobilizados no dia-a-dia «não são convertíveis e encontram-se na acção». «Validar adquiridos exige conhecer os saberes e competências, conhecer as pessoas, promover reconhecimento social. A nossa acção é a interacção, a interdependência das características pessoais com as características de contexto. No meio destas condições vão-se desenhando os projectos pessoais», considerou. Para conhecer e reconhecer as características pessoais «é necessária uma reflexão demorada sobre a vida de cada um e isto não é fácil». O balanço de competências permite a uma pessoa adulta «envolver-se voluntariamente num processo de auto-reconhecimento e reconhecimento dos seus saberes e competências, construindo a partir daí um projecto pessoal e profissional, estruturando as etapas e encontrando os meios adequados para o realizar».
Luís Alcoforado concluiu sustentando que quando o balanço de competências surgiu «já todos sabíamos que era preciso promover processos formativos e educativos que transformassem os adultos, só faltava a possibilidade de transformar os adultos». Mas para isso «é preciso criar condições para que os adultos se transformem».

Projecto Nós

O Projecto Nós, no âmbito do qual foi organizado o seminário europeu, visa desenvolver um sistema de apoio de reinserção profissional e promoção do emprego. A ideia fundamental é que os serviços disponibilizados para desempregados e empreendedores devem ter por base uma autonomia auto-construída pelos sujeitos que realizam percursos integrados para o efeito.
O facto de esses percursos serem integrados, envolvendo soluções de orientação, de formação e de educação de adultos, de criação de micro negócios e de respostas especialmente para sectores específicos, como as mulheres, implica que esteja disponível um dispositivo com capacidade de apoiar a gestão com elevada autonomia dos próprios percursos e que estejam instaladas estratégias de desenvolvimento em oposição a actuações meramente reparadoras, que assumem um carácter transitório.
Outra das vertentes que assume particular importância é a certificação de adquiridos pela experiência de vida com carácter escolar e profissional, a dupla certificação.
Este dispositivo, em dimensões que se prendem com a sua estruturação e funcionamento, captação de parceiros territoriais numa lógica integrada de actuação, enfoque sobre a pessoa, valorização e reconhecimento dos seus saberes na óptica da dupla certificação, entre outras, constitui o principal produto deste projecto, susceptível de contribuir para o enriquecimento das práticas de educação-formação de adultos e de reconhecimento, validação e certificação de competências adquiridas ao longo da vida, temática que, aliás, reflecte as preocupações do actual Governo, nesta matéria, com a criação dos Centros «Novas Oportunidades».
Esta preocupação está bem expressa em recentes intervenções do Secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional. Fernando Medina defende que “Portugal é actualmente um dos países europeus onde mais se justifica abordar a temática da qualificação”, como referiu, em Guimarães, na Conferência «Modelo Europeu --Formação e Qualificação». Segundo o governante, “no nosso país, em 5 milhões de trabalhadores activos, 3 milhões e 500 mil não concluíram o ensino secundário”, advertindo assim que “Portugal não pode esperar pela inércia do tempo” e assinalando que os Centros «Novas Oportunidades» são “sinónimo de um trabalho contínuo em prol da qualificação dos recursos humanos”.