Newsletter Nº5 / Outubro de 2007 - VOLTAR
   

 

Trás-os-Montes aposta na Competitividade Sustentável
«GLOCAL – Empresas Locais com Orientação Global»


Uma das consequências do crescente processo de globalização tem sido a criação de novas relações entre mercados, exigindo mais e melhores estratégias de competitividade. O desenvolvimento dos mercados globais não significa, contudo, a condenação dos mercados locais. A prová-lo está o projecto  GLOCAL, co-financiado pela
IC-EQUAL, que, desde 2001, tem vindo a apostar no desenvolvimento sustentável da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, através de um programa integrado de criação e acompanhamento de novos empreendedores. Partindo do conceito de “glocalidade” e da valorização dos recursos locais, com critérios de competitividade transnacionais, este projecto já ajudou a criar perto de 30 empresas, e dele resultou um vasto conjunto de recursos técnico-pedagógicos de apoio ao empreendedorismo, que têm vindo a ser reconhecidos, a nível europeu, como oportunos e inovadores.

Se há alguns anos tivesse sido realizado um diagnóstico, na,região de Trás-os-Montes e Alto Douro, certamente que algumas das suas conclusões apontariam, por exemplo, para a inexistência de um ambiente institucional e empresarial dinâmico, propício ao aparecimento de ideias de negócio inovadoras, para a inexistência de uma tradição de cooperação e trabalho em rede ou para uma cultura empreendedora pouco activa, com fraco envolvimento das populações no desenvolvimento local. Hoje, graças ao projecto GLOCAL, esta realidade é diferente e, na tradição recente da região, as dinâmicas que se vivem são as que contribuem para o desenvolvimento sustentável, através do fomento de um empreendedorismo inovador e socialmente responsável. Imprimir inovação e competitividade local nesta região, revelou-se já uma aposta ganha pelo projecto GLOCAL, que concebeu um modelo inovador de actuação, no que se refere ao auto-emprego.   

Inverter o Ciclo
Segundo a evolução do desenvolvimento local, «é necessário aproveitar o processo global em favor do aumento da competitividade empresarial local», sustenta Cristina Coelho, responsável pelo GLOCAL, iniciativa cuja premissa de partida é a de transformar aparentes limitações em oportunidades de desenvolvimento. Neste sentido, problemas profundos não só a nível do emprego, mas também no que concerne às questões de género, cultura, educação, informação e discriminação territorial,  fizeram da região de Trás-os-Montes e Alto Douro um “laboratório” privilegiado para a experimentação de novas dinâmicas de empreendedorismo local. Simultaneamente, a região apresentava grandes potencialidades em recursos internos, naturais e culturais o que, “glocalmente” falando, não significa outra coisa senão oportunidades de investimento em negócios inovadores.

Perante este cenário, o projecto trabalhou para desenvolver serviços e medidas que facilitassem o acesso à criação de novas empresas, bem como,  para a identificação de novas oportunidades de emprego. Na sua primeira fase de desenvolvimento, o GLOCAL estabeleceu os seguintes objectivos:

            ● Criar o Laboratório de Oportunidades de Investimento (LOI) ligando os centros de saber às instituições e aos             públicos alvo;
            ● Democratizar formas alternativas de financiamento;
            ● Dinamizar o empreendedorismo;
            ● Desenvolver ferramentas de orientação e melhoria das competências dos empreendedores;
            ● Criar ferramentas e serviços de suporte aos empreendedores descentralizados nas instituições locais;
            ● Criar uma rede de apoio local ao empreendedorismo;
            ● Introduzir orientação global nas empresas locais.

Para cumprir estes objectivos, o trabalho em rede com actores estratégicos revelou-se fundamentalO projecto GLOCAL resulta de uma Parceria de Desenvolvimento composta pela Superação SPA Consultoria (entidade interlocutora), o NERVIR – Associação Empresarial, a CCVM – Cooperativa Cultural Voz do Marão, a ALTO FUSTE – Consultoria Agrária e a UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Para assegurar a sustentabilidade e disseminação do projecto, foi também criada uma parceria estratégica, que envolveu Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Caixas de Crédito Agrícola Mútuo, a Federação Minha Terra e as ADL’s suas federadas, Centros de Emprego, Centros Regionais de Segurança Social, Associações e o IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação.

Responsável pela dinâmica e sucesso GLOCAL foi, também, a Parceria Transnacional “Gateway to Enterprise” que reuniu, para além do projecto português, a participação de Inglaterra (projecto Create +), Alemanha (projecto GO! Unlimited) e Polónia (projecto  Wirtualny Inkubator).

Empreendedorismo GLOCAL
Definidos os princípios de trabalho, a parceria empenhou-se em desenvolver as ferramentas necessárias para apoiar a criação de novas empresas. No horizonte estava a «necessidade de dotar, especialmente as comunidades rurais, de mecanismos e competências de criatividade e participação individual e colectiva num projecto integrado de longo prazo, claramente definido e identificado, para o qual existam ferramentas que facilitem o trabalho em rede (entre empresas, entre instituições e empresas, instituições e indivíduos), tanto dentro do território como para fora deste, orientando-o para um empreendedorismo GLOCAL», como é referido no documento de apresentação do projecto.

A grande aposta foi, assim, o empowerment dos públicos em situação de maior desvantagem nesta área nomeadamente,  os desempregados, os jovens à procura do primeiro emprego e as mulheres. «Trabalhámos muito na questão da igualdade de oportunidades e de género. No que diz respeito ao empowerment do público feminino, eu diria que foi uma batalha muito bem ganha. Focalizámo-nos muito no trabalho sobre as competências e necessidades das mulheres residentes. Com as licenciadas foi mais fácil. Com as restantes trabalhámos em parceria com entidades que tivessem cursos profissionais, de forma a habilitar estas mulheres a criar o seu próprio emprego», refere a responsável do projecto.

Com efeito, numa primeira fase, 60% do público envolvido foram mulheres e, na segunda fase do projecto, o público feminino representou 55% dos beneficiários envolvidos. Quanto à média de idades dos /as empreendedores/as, esta situa-se entre os 20 e os 35 anos. «Houve pessoas que, apesar de não terem criado empresas, conseguiram empregos durante o processo, o que também é um aspecto muito revelador da aposta no empowerment e trabalho em rede», revela Cristina Coelho.

Contribuição EQUAL
É inquestionável que «este modelo é único” e que os seus impactos foram sentidos na “região, a vários níveis, sobretudo pela vertente de dinamização e cooperação entre empresas e organizações», afirma a coordenadora. De facto, a preocupação com a inovação esteve presente ao longo de todo o processo, incluindo a concepção, abordagem dos problemas, soluções encontradas, metodologias, produtos a transferir e mesmo na gestão e avaliação dos resultados. Também por esta razão, este foi considerado um projecto-piloto que já revelou consequências muito positivas a nível nacional e além fronteiras.

Este sucesso é também resultado de uma intervenção integrada, orientada pelos grandes princípios EQUAL, iniciativa sem a qual este projecto não se teria desenvolvido, «porque é completamente inovador, atípico a nível das parcerias, das actividades, da flexibilidade e focalização em boas práticas. Neste sentido, a EQUAL é um laboratório de inovação que permitiu que este projecto tivesse o sucesso que teve», refere Cristina Coelho, acrescentando que «houve uma osmose entre os princípios EQUAL e as necessidades do projecto. Encontrámos em princípios como o empowerment, a igualdade de género ou o trabalho em rede, a teorização do que achámos que era importante trabalhar na prática

Práticas de Excelência
Assim, com o objectivo de estimular a criação de empresas “glocais”, de uma forma sustentada e socialmente responsável, o projecto concebeu, na primeira fase, os seguintes produtos:

LOI / Metodologia OPMR –Esta prática materializa-se na narrativa do LOI (Laboratório de Oportunidades de Investimento) e na Metodologia OPMR (Detecção de Oportunidades em Meio Rural) que inclui uma aplicação informática de apoio em CD-ROM. Trata-se de uma abordagem diferente para a análise de projectos de investimento segundo critérios de sustentabilidade territorial. Através desta metodologia pretende-se sensibilizar para as possibilidades de uma análise não clássica, isto é, uma análise que não recorra apenas à comparação de custos e benefícios relativamente a projectos de investimento.
Criar e Consolidar empresas (G)locais – Passo a passo – Recurso técnico-pedagógico utilizado na actividade de suporte ao empreendedor sobretudo como auxiliar nas actividades de formação-Acção, tutoria e acompanhamento a empreendedores. O Manual de Criação de Empresas organiza-se em 9 módulos, promovendo uma aprendizagem, por etapas, das temáticas relacionadas com a criação e consolidação de empresas.
SIM-Sistema de Microcrédito para Auto-Emprego e a Criação de Empresas – Sistema alternativo de financiamento que se concretiza na disponibilização de uma linha de crédito para financiar a criação de negócios na zona de intervenção das CCAM (Caixa de Crédito Agrícola Mútuo). Este sistema foi protocolado entre a parceria de desenvolvimento do projecto Glocal e as entidades financiadoras Caixas de Crédito Agrícola Mútuo do Alto Douro, Favaios e Vale do Douro. Visando responder à dificuldade de acesso dos empreendedores ao financiamento, o SIM apresenta-se como uma solução integrada, tanto ao nível do empreendedor como das entidades financiadoras. Assim, ao actuar de forma integrada o SIM é, sobretudo, uma família de produtos que engloba as seguintes práticas principais: Sistema de Financiamento, Serviço Integrado de Suporte ao Empreendedor e um Kit de recursos técnicos e pedagógicos de apoio à implementação destas práticas.
SISE–Serviço Integrado de Suporte ao Empreendedor – Concebido para acompanhar os empreendedores abrangidos pelo GLOCAL, em todo o processo de criação da empresa, passando por dimensões tais como o amadurecimento da ideia de negócio, a análise da sua viabilidade económica, técnica e financeira, a planificação da actividade através da elaboração do Plano de Negócios (análise de mercado, definição de estratégias e objectivos) e Estudo de Viabilidade económico-financeira, a agilização de processos burocráticos, etc. O serviço integra, igualmente, o acompanhamento de gestão do financiamento pelo menos durante o primeiro ano de actividade.

Acção Integrada
Conciliando o financiamento com o suporte ao empreendedor, o serviço de apoio integrado proporcionado pelo SIM constituiu, praticamente, uma revolução de processos, que permitiu atingir quatro grandes objectivos: flexibilizar soluções de financiamento, adaptando-as à especificidade do negócio, acelerar os processos de decisão, dinamizar a criação de empresas e emprego, bem como fixar as empresas nos concelhos abrangidos. Este processo representa, igualmente, uma enorme mais valia para os empreendedores em termos de competências desenvolvidas, que, com o objectivo de planear e viabilizar o seu plano de negócio, aprenderam a empreender.

«O GLOCAL apoia-se, sobretudo, numa metodologia com conceitos de sustentabilidade, bem social e equidade social. Também por este motivo e pelas vantagens evidentes, a fase de disseminação correu tão bem. No final da primeira fase estavam criadas 11 empresas, com mais sete em fase de constituição», conta Cristina Coelho. Refira-se que, em média, a criação e consolidação de uma empresa por recurso ao SIM custa apenas entre 2500€ e 3000€, o que represente o valor consideravelmente baixo, sobretudo se forem tidos em conta os custos económico-sociais decorrentes de uma situação de desemprego.

A avaliação positiva e o reconhecimento da boa prática, tanto a nível nacional como europeu, levou o projecto a investir nos resultados de uma forma ainda mais activa. O objectivo é a amplificação dos resultados, consolidando e melhorando as actividades, de forma a garantir a sustentabilidade do projecto após final do segundo financiamento EQUAL (segunda fase), que decorrerá até ao final de 2007.

Mais Criatividade
E porque, apesar das conquistas já alcançadas, a aposta no empreendedorismo nunca deixa de ser uma prioridade, o projecto GLOCAL iniciou uma segunda fase de implementação, orientada para o desenvolvimento sustentável da região de Trás-os-Montes e Alto Douro. A grande novidade é o investimento na criatividade e mapeamento de oportunidades de negócio, de forma a tornar os empresários mais autónomos. No trabalho, com o potencial empreendedor,  sobre a ideia inicial de negócio, há uma formação de dois dias (Atelier de ideias), depois da qual o próprio tem que fazer um mini-plano de negócios para ser submetido a avaliação por parte de uma Banca Interna. É uma fase de exploração que permite aos empresários questionarem-se sobre as ideias que são importantes e viáveis no território. «O Atelier de ideias é uma metodologia muito motivadora que forma o empresário no sentido de saber como introduzir a criatividade em meios rurais», afirma Cristina Coelho.

Assim, após uma avaliação da primeira fase de desenvolvimento do projecto Glocal, foram identificados os pontos fracos e as necessidades que, de novo, se apresentaram como oportunidades de desenvolvimento. Mantiveram-se as ideias orientadoras de inovação, responsabilidade social e trabalho em rede e reforçou-se a aplicação do conceito de “glocalidade” ao território, de forma a promover mais e melhor a inovação e competitividade local.

Partindo do programa de base (SIM e SISE) investiu-se, igualmente, na cooperação empresarial e em novas formas de financiamento, a par de um forte trabalho sobre o mapeamento das oportunidades de investimento, desenvolvendo a metodologia concebida na primeira fase do projecto.
           
Responsabilidade Social
Para além das entidades envolvidas na primeira fase, a Parceria de Desenvolvimento da segunda fase integrou a ADR – Agência de Desenvolvimento Regional de Trás-os-Montes e Alto Douro. Foi, também, constituída uma nova parceria estratégica, de forma a garantir a sustentabilidade do projecto, bem como para amplificar os mecanismos criados, após o financiamento EQUAL. Esta parceria é constituída pelas Câmaras Municipais do Vale do Douro Norte, Associação de Municípios do Vale do Douro Norte, Centro de Emprego de Vila Real, Centro de Segurança Social de Vila Real, IAPMEI, IEFP, bem como outras instituições com responsabilidades e potencialidades, no acompanhamento estratégico do projecto, com vista à incorporação das práticas nele geradas.

«Trabalhou-se de uma forma ainda mais intensiva os conceitos de solidariedade, investimento e responsabilidade social», adianta Cristina Coelho, numa altura em que o projecto está particularmente activo com o final da segunda fase. A evolução é evidente e o impacto na região espelha-o. Hoje, estão constituídas perto de três dezenas de empresas e o dinamismo que se respira na região em nada se assemelha ao de há alguns anos atrás. Tal sucesso foi conseguido graças à aposta em novas dimensões do GLOCAL.

Para além do Mapeamento de Oportunidades Concelhias, desenvolveu-se o Programa Premium (Criatividade, Competência e Sustentabilidade) que, partindo do SISE, desenvolvido na primeira fase, valoriza o papel do empreendedor nos processos de desenvolvimento local e a sua autonomia, nomeadamente, o já referido trabalho sobre as ideias. Pensada está também a atribuição de Prémios num evento público chamado Galeria de Negócios, onde os empreendedores já estabelecidos apresentarão os seus negócios às comunidades.

Uma das grandes inovações desta segunda fase do Glocal, é a constituição de uma rede de Mentores Voluntários que, sendo empresários experientes, em muito contribuem para o aumento das competências dos empreendedores, auxiliando-os no processo de consolidação da empresa. Quanto ao financiamento, as possibilidades também se alargaram. Para além dos mentores, os empresários poderão recorrer a um Sistema de Apadrinhamento. Através da adopção da metodologia de “business angels”, associam-se competências e financiamentos a novos empreendedores, promovendo a responsabilidade social de empresas e empresários locais. Num evento denominado Mercado de Ideias, de cuja realização se faz um balanço muito positivo, os empreendedores têm oportunidade de “vender” as suas ideias e encontrar um padrinho (investidor).

Incrementar a Competitividade
Visando promover a competitividade e sustentabilidade dos negócios estabelecidos, bem como a diminuição do risco de criação de empresas por públicos desfavorecidos, especialmente mulheres, foram ainda criadas Redes de Cooperação inter-empresarial. Em desenvolvimento está também a INC-UTAD, uma incubadora de inovação na Universidade, num modelo aberto à comunidade e de interligação entre a investigação e a empresa. Segundo o documento de apresentação do projecto, «a inovação reside no facto de ser a primeira estrutura na instituição cuja finalidade é a promoção do empreendedorismo numa região cujas características territoriais, nomeadamente a nível do tecido económico e empresarial são muito negativas.» Outros planos inovadores são a Incubadora Rural, na freguesia de Campeã, e a constituição de uma Rede Europeia de Mentores.

Visivelmente satisfeita com os resultados alcançados, Cristina Coelho sustenta que «o programa Premium foi essencial em termos de demonstração, já que há um apoio ao empreendedor em termos de metodologia e aumento de competências num território onde pouca coisa estava feita ao nível do empreendedorismo». A grande vitória está também na mudança de mentalidades que este processo desencadeou. Agora, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro encontrou um caminho onde, afinal, existem oportunidades de empreender, de forma a tornar a região mais sustentada e dinâmica, afirmando a sua força a nível nacional e transnacional.

Como refere a coordenadora, «quando há flexibilidade de trabalho com as pessoas, consegue-se um equilíbrio muito grande» e, assim, certamente se cortarão metas julgadas impossíveis. Depois da globalização é, então, tempo de apostar na “glocalização”, em nome de espaços rurais mais empreendedores e preparados para competir ao nível dos grandes mercados, numa base de qualidade e criatividade, ao nível das melhores práticas internacionais.

 

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