Newsletter Nº4 / Setembro de 2007 - VOLTAR
   

 

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Mini Festival de Teatro na Cova da Moura
«O teatro ao serviço do empowerment comunitário»

O Mini Festival de Teatro Fórum da Buraca esteve em cena no bairro da Cova da Moura, no passado dia 15 de Julho. A festa mostrou um inovador tipo de teatro, destinado a promover o empowerment comunitário, e demonstrou como as parcerias entre instituições e relação inter-bairros podem funcionar.

Tchino, 23 anos, residente na Cova da Moura, fez as honras da casa. O dia era de festa. “Pretendemos mostrar os aspectos positivos do bairro e mostrar como é a comunidade da Cova da Moura”, explicou. Numa visita guiada, Tchino revelou os caminhos e cantos do bairro: comércio, escolas, serviços, núcleos religiosos, arquitectura e um pouco da história e evolução do bairro. O jovem guiou os visitantes e deu a conhecer, em contraste com o estereótipo dominante, um bairro feito também de casas cuidadas, de varandas, floreiras vibrantes e gente afável. De rua em rua, o percurso desembocou na Associação Cultural Moinho da Juventude, onde o Grupo de Teatro do Oprimido (GTO), de Lisboa, mostrou como se trabalha o empowerment comunitário em palco.

O mini Festival de Teatro Fórum da Buraca, realizado no âmbito do projecto DiverCidade, co-financiado pela Iniciativa Comunitária EQUAL, animou o dia e atraiu público de dentro e de fora da Cova da Moura. Em cena estiveram três peças, três grupos que abordaram as temáticas do preconceito, estigma social, empregabilidade e igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, reflectindo as preocupações da própria comunidade. O programa do mini Festival de Teatro Fórum foi, assim, uma forma de apresentar o trabalho desenvolvido pelo Projecto, reunindo jovens artistas dos bairros da Cova da Moura e do Zambujal. Depois das representações, teve lugar o fórum, um momento crucial do evento, que permite o debate e ensaio de soluções, por parte do público, para as problemáticas apresentadas em cena.

Comunidade em Cena
O Mini Festival de Teatro Fórum é mais uma das iniciativas que vem dar força ao trabalho do projecto DiverCidade que, como referido, trabalha para o empowerment comunitário, mais especificamente das populações imigrantes e minorias étnicas. Possibilitar a sua participação equitativa e igualitária na sociedade e apoiar percursos de inserção sócio-profissional são objectivos deste Projecto EQUAL, desenvolvido no âmbito da Parceria de Desenvolvimento composta pelo Secretariado Diocesano de Lisboa da OPNC (Entidade Interlocutora), a Associação Cultural Moinho da Juventude, o Grupo de Teatro do Oprimido, a Câmara Municipal da Amadora, a GEBALIS, e pela CAIS – Associação de Solidariedade Social.

“Esta iniciativa vem reforçar o trabalho de articulação que já tínhamos com o Moinho da Juventude dentro da parceria, e traz pessoas de fora, tanto através do GTO como através dos jovens e do trabalho que têm feito”, explicou Gisella Mendoza, a actriz peruana, responsável pela introdução da metodologia do Teatro do Oprimido em Portugal. Este trabalho assenta na reflexão e discussão das problemáticas que a comunidade tão bem conhece, interpelando e estimulando a assistência a propor soluções.
Da plateia para o palco e do palco para a plateia, fomenta-se o diálogo e a intervenção de todos. O objectivo é colocar a comunidade em cena, protagonizando as respostas que, na opinião de cada um, podem ser as soluções para os problemas abordados na peça.

Anabela Rodrigues, responsável pela Associação Cultural Moinho da Juventude considera que o balanço é muito positivo. “Este projecto permitiu-nos experimentar no terreno aquilo que, enquanto ideia, pensávamos que iria funcionar. Tivemos essa oportunidade não só no território da Cova da Moura, mas também em conjunto com outras comunidades - Zambujal, Quinta das Galinheiras e Casal dos Machados”. Esta dimensão de experimentação, do passar das ideias às concretizações é também um importante objectivo dos projectos EQUAL. Só desta forma se pode esperar dar voz às problemáticas e gerar, como no caso do Teatro Fórum, a discussão pública de questões tão urgentes como as apresentadas em cena.
 
Recusar a Vitimização
A metodologia em si tem uma série de exercícios que provoca o reconhecimento de situações de opressão. Com base no teatro-imagem, reflecte-se sobre essas imagens”, esclarece Gisella Mendoza sobre a dimensão inovadora deste trabalho. “Na nossa metodologia o oprimido não é um coitadinho, não é uma vítima, porque ser vítima significa que há resignação, que já não há luta. Na nossa opinião, o oprimido é alguém que quer lutar”, acrescenta a actriz.

Para Anabela Rodrigues, a constituição do grupo de teatro e a captação dos jovens foi o começo de uma jornada feita passo-a-passo, tendo-se já conseguido conquistas relevantes. “Primeiro, este grupo fantástico conseguiu erguer-se e depois conseguiu levar estes jovens, com uma peça, ao Teatro Dona Maria II! Alguns dizem que nunca imaginaram que algum dia viessem a entrar num grupo de teatro ou que o Teatro do Oprimido os trouxesse até aqui”, realçou. Por outro lado, Anabela Rodrigues sublinhou a importância das competências que os jovens foram adquirindo ao longo do projecto, conquistadas “de forma muito serena, natural, espontânea e a seu tempo”, o que se constitui como uma importante fonte de empowerment.

Progressos alcançados
O percurso e o progresso dos jovens foi, igualmente valorizado por Gisella Mendoza. “Vejo estes jovens a crescer. A forma como falam agora é diferente. A forma como pensam e reflectem as questões é mais elaborada. Já não se ficam pelo «yá! Fixe!». Desenvolvem o porquê, o porque não ou o porque sim. A argumentação, o modo de pensar, o poder de projecção em momentos de conflito criou novas aptidões. Hoje são eles a levantarem-se, a questionarem outros jovens e questionam-se a si próprios”.

As questões lançadas para reflexão contagiaram o público, que se envolveu a 100%, tendo ficado evidente o potencial do Teatro Fórum. Ao longo do dia, e durante a apresentação das peças, a comunidade interveio, sugeriu soluções, protagonizou-as e participou na reflexão. “As pessoas já começaram a aperceber-se que não são meros espectadores, que têm de propor soluções. No início alguns falavam, punham logo o dedo no ar. Depois verificámos que houve uma mudança, que vinham a pensar no que iriam dizer. Havia pessoas que voltavam na semana seguinte, pois já tinham pensado na resposta. Queriam intervir e testar se funcionaria ou não. Acho que isto foi o mais interessante de tudo - as próprias pessoas perceberem que têm uma voz e a possibilidade de fazer alguma coisa. Era isto que queríamos provocar”, afirmou Anabela Rodrigues. E esta é mais uma prova do poder de mudança das iniciativas EQUAL.

Este mini festival demonstrou-o, confirmando que o empowerment da comunidade está nas mãos e no palco da vida de todos e de cada um.

 

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